INTRODUÇÃO
As
cartas de Paulo são, sem dúvida alguma, uma das partes mais
importantes da Bíblia para a teologia atual;
A
carta de Filipenses, embora pequena é rica em lições
para vida.
É
provável que muitos já tenham
lido esse
trecho paulino
e na correria do dia a dia nunca tenham se debruçado sobre ele
a fim de perceber o que de fato este
nos diz.
Ao
longo das próximas páginas, será apresentado um rápido panorama
histórico e literário dessa
carta, isso possibilitará ao
leitor compreender a seção de “Estudo do
texto”, onde será comentado
de maneira mais pormenorizada uma
perícope em especial, a saber, o texto de Filipenses 1.27-30.
Eventualmente
se fará necessária a observação do original grego
a fim de dirimir dúvidas que surgem com a observação de
suas
versões
em português. Os significados
aqui atribuídos foram coletados de uma versão online da Strong's
Concordance, o link
para acesso pode ser encontrado na seção de Bibliografia.
Ainda, sempre que possível, será apresentada uma adaptação
fonética das
palavras do idioma
original; não entenda o leitor
essa adaptação como uma transliteração, antes é um esforço para
trazer a sonoridade das
palavras
gregas
aos ouvidos brasileiros.
CONTEXTO HISTÓRICO
A carta de
Paulo aos filipenses
é mais um de seus escritos confeccionados em seu tempo de
prisioneiro; mais precisamente em seu primeiro momento na prisão
(YOUNGBLOOD,
2004),
entretanto, há quem credite o local originário da carta a estadas
paulinas em Cesareia ou Éfeso (BOOR,
2006), mas,
a maioria dos escritores concordam com Roma como local de sua
autoria, dessa forma, a epístola pode ser “datada em cerca de 60
d.C” ( YOUNGBLOOD:
2004, p.576
)
O
tema principal da carta aos filipenses é a alegria (BOOR, 2006), mas
não uma alegria humana, como a que Paulo poderia experimentar pelas
ofertas recebidas, ou pelos seus companheiros Timóteo e Epafrodito (
YOUNGBLOOD:
2004, p.577)
mas sim a Alegria no Senhor, Boor, em
seu discurso sobre Filipenses, ao observar a alegria como tema
principal da carta nos afirma que:
Essa
impressão é correta, e quando a averiguamos, buscando esse tom na
carta toda, notamos que não se trata apenas de uma tônica, mas de
um pensamento fundamental que se estende por toda a carta.
(BOOR:2006, p. 10)
Pode-se
argumentar que o que motivou que levou Paulo à escrita da carta fora
uma “oferta
de amor relativamente generosa enviada pelos filipenses ao apóstolo
na cadeia por meio de Epafrodito” (BOOR: 2006, p.6), mas
nem só de alegria a carta é construída, havia sim outras questões
por detrás das motivações Paulinas; Martin nos afirma que “havia
diversas influências sendo exercidas contra a congregação
filipense, a qual […] estava cercada por falsos ensinos” (1989,
p. 46), a compreensão dessas ameaças é fundamental para o correto
entendimento da mensagem paulina; como se verá a seguir.
Das
falsas doutrinas que permeavam aquela cidade, à luz da perícope
estudada a seguir, vale ressaltar que “os intrusos filipenses
negavam a compreensão da chamada cristã como sendo aceitação da
humildade e do sofrimento” (MARTIN: 1989, p.47), dessa forma
entendiam que a vida cristã não precisava de sofrimento.
Quanto a
veracidade da carta, não há necessidade de alongar-se em
discussões, é de “consenso geral” a sua autoria Paulina e sua
integridade como obra completa. No entanto, nem sempre foi assim,
muitos há que já tenham tentado atribuir a outros a autoria de
Filipenses, bem como localizar em seus trechos fragmentos
pertencentes a outros escritos. Boor, em seu comentário à carta de
Filipenses, nos tranquiliza ao explanar sobre a história dos
principais adversores a carta, em sua obra podemos ler que:
Esse
foi o caso sobretudo da chamada escola de Tübingen, conhecida por
seu radicalismo
histórico-crítico, que também nesse caso escolheu a via negativa.
Contudo, depois do falecimento de seu último expoente, Carl Holsten
(em 1897), ninguém que mereça ser levado a sério questiona a
autenticidade da carta. (
BOOR:2006, p. 6)
Dessa forma,
pode-se afirmar confiantemente que o que temos em mãos é, Mutatis
mutandis,
de fato uma tradução dos escritos
Paulinos aos filipenses.
CONTEXTO LITERÁRIO
As
cartas paulinas muitas vezes são divididas em 4 categorias, a saber,
as escatológicas, soteriológicas, pastorais e de prisão; a carta
de Filipenses se enquadra nessa última categoria (CONEGERO, 2019),
no entanto, o fato de Paulo encontrar-se em situação carcerária,
não se tornou em impeditivo para o desenvolvimento de uma carta
coesa e profunda, conforme veremos a seguir.
Ao
longo do tempo, muitos
autores têm propostos esquemas de esboços para Filipenses. Enquanto
Calvin
nos apresenta uma divisão em 4 partes, sendo
elas
“Alegria
no sofrimento (1.1-30), Alegria no servir (2.1-30), Alegria em crer
(3.1-4.1), Alegria em dar (4.2-23)” (2003,
p.1659), Youngblood,
em sua obra, nos
apresenta um esboço didático muito mais completo e intuitivo, ele
divide a carta aos filipenses ainda em 4 partes, mas nos trás
subdivisões de cada uma delas, suas divisões são: “O relato de
Paulo acerca da sua situação (1.1-30), Exortação ao amor
fraternal (2.1-30), Exortação à maturidade cristã (3.1-31),
Exortação à Paz de Cristo (4.1-23)” (
YOUNGBLOOD:
2004,
p.577).
Se
nos
atentarmos às divisões, veremos que elas guardam certas
semelhanças; enquanto todas as divisões de Calvin giram em torno da
palavra “Alegria”, Youngblood
trabalha
de um modo mais específico,
de certo a compreensão da enfase da carta, pode alterar nosso modo
de dividi-la.
Isso
fica claro em especial na terceira parte, o que Calvin chama de
“Alegria em Crer”, Youngblood
chama
de “Exortação à maturidade Cristã”; ambos delimitam essa
terceira parte como a totalidade do capítulo 3. Escusado nos é
dizer que, embora os títulos escolhidos sejam “teologicamente
próximos”, em sua essência guardam grandes diferenças. Abaixo
oferecemos um quadro comprativo dos dois esboços.
|
QUADO
COMPARATIVO DE ESBOÇOS
|
|||
|
CALVIN
|
Youngblood
|
||
|
TEMA
|
REFERÊNCIA
|
TEMA
|
REFERÊNCIA
|
|
Alegria
no sofrimento
|
1.1
a
1.30
|
O
relato de Paulo acerca da sua situação
|
1.1
a
1.30
|
|
Alegria
no servir
|
2.1
a
2.30
|
Exortação
ao amor fraternal
|
2.1
a
2.30
|
|
Alegria
em crer
|
3.1
a
4.1
|
Exortação
à maturidade cristã
|
3.1
a
3.31
|
|
Alegria
em dar
|
4.2
a
4.23
|
Exortação
à Paz de Cristo
|
4.2
a 4.23
|
É
de se convir que ambos esboços guardam muitas similaridades, não se
pode negar que, ao fazer o relato a cerca da
sua situação, Paulo nos fala sobre a alegria no sofrimento; quando
nos escreve sobre o amor fraternal, coloca-se em pauta
a alegria no servir.
No
entanto, a partir da terceira divisão começamos a notar pequenas
divergências, a começar por Calvin que insere o primeiro verso do
capítulo 4º nessa
divisão
enquanto Youngblood o deixa de fora. Somos da opinião que Calvim
fora mais feliz em sua decisão; ao observarmos o início desse
verso, percebemos que ele principia com a
palavra grega Ὥστε
– Húste, uma
conjunção conclusiva em muitas Bíblias traduzidas como “Portanto”
ou ainda “Agora”. Conclusões fecham o raciocínio criado, e
embora Youngblood
tenha
seguido a divisão de capítulos, o verso em questão faz parte da
perícope anterior, pois conclui o pensamento iniciado, da
mesma forma que, ao menos a primeira parte do versículo
1º do capítulo 3, deveria figurar como o 31º verso do capítulo 2.
Vale
sembre lembrar que a divisão de capítulos e
versículos não
é inspirada e em muitos casos falha; antes
é um esforço humano a fim de facilitar a localização de passagens
dentro das Escrituras.
Essas
divisões se iniciaram
no século XIII com os esforços de Stephen
Langton, clérigo
inglês,
que
dividiu as escrituras em capítulos e Pagnino
de Luca, tradutor
italiano que,
no
século XVI, dividiu a Bíblia em versículos. Mas, foi apenas em
1553, Século XVI, que a divisão que temos hoje nasceu; ela é
oriunda dos esforços de Robert Stephanus que estudou os trabalhos
anteriores e publicou uma versão francesa do Texto Sagrado, tal qual
temos hoje (NORONHA, 2016).
Ainda
em suas divisões, na terceira parte, o título proposto por
Youngblood
é
mais condizente com o texto, pois Paulo, ali exorta seus leitores
sobre os perigos da justiça própria, dos inimigos de Cristo e os
convida a um conhecimento maior sobre Jesus (2004, p.577) e
embora tudo isso traga ao fiel uma “Alegria em Crer”, pensamos
que resumir todo o ensino ali contido com essa expressão seria de um
agir minimalista.
Por
fim, somos da opinião que a quarta divisão proposta por Calvin,
isto é, “Alegria
em dar”, não
condiz com a parte final da carta aos filipenses, tendo mais uma vez
Youngblood
sido
mais feliz ao intitular essa divisão como “Exortação
à Paz de Cristo”.
No
geral, embora Calvin tenha sido feliz em suas duas primeiras divisões
e na localização mais precisa do final de terceira (e inicio da
quarta) divisão, Youngblood
nos
apresenta um trabalho mais conciso e mais detalhado, de forma que
adoaremos suas
sugestões.
ESTUDO DO TEXTO
A
carta de Paulo aos
filipenses é sem dúvida uma pérola das escrituras, em cada
perícope encontramos valiosas lições e cada versículo possui em
si uma série de aplicações; não poderia ser diferente a palavra
de Deus.
No
entanto, para fins práticos, nos deteremos em uma perícope singular
dessa carta. Considerando
a divisão de versículos habitual, nosso estudo se concentrará no
texto do 1º capítulo de Filipenses, do verso 27 ao 30, o qual
reproduzimos abaixo, segundo a tradução da Bíblia
Almeida Corrigida e Fiel.
Somente
deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para
que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós
que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo
ânimo pela fé do evangelho.
E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele,Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim.
E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele,Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim.
(Filipenses
1.27-30 ACF)
A fim de podermos estudar melhor essa perícope, cabe-nos uma recapitulação das palavras anteriores do apóstolo Paulo, para tanto, utilizaremos uma outra tradução, conhecida como “O livro”
CONTEXTUALIZANDO
Paulo
e Timóteo, ao serviço de Jesus Cristo, saúdam todos os santos,
cujas vidas estão unidas a Cristo Jesus, na cidade de Filipos.
Saúdam também os pastores na igreja e os diáconos. Que Deus nosso
Pai e o Senhor Jesus Cristo vos dê graça e paz.
Sempre que penso em vocês, louvo e expresso a Deus o meu reconhecimento pelas boas recordações que vocês me deixaram. E quando faço oração, é com alegria que sempre vos menciono, por causa da vossa participação ativa na difusão do evangelho, desde o primeiro dia até agora. E tenho a certeza de que Deus, que começou essa boa obra na vossa vida, vai completá-la até ao momento em que Jesus Cristo voltar.
Sempre que penso em vocês, louvo e expresso a Deus o meu reconhecimento pelas boas recordações que vocês me deixaram. E quando faço oração, é com alegria que sempre vos menciono, por causa da vossa participação ativa na difusão do evangelho, desde o primeiro dia até agora. E tenho a certeza de que Deus, que começou essa boa obra na vossa vida, vai completá-la até ao momento em que Jesus Cristo voltar.
-
Esse é o início de sua carta, Paulo aqui se apresenta de forma cordial e elogia os filipenses por sua ação na evangelização
E é justo que sinta isto a vosso respeito, porque vocês têm um lugar muito especial em meu coração; participamos juntos das bênçãos de Deus, tanto quando estava na prisão como em liberdade, defendendo a verdade e proclamando o evangelho.
Deus sabe como sinto saudades de vocês todos, no verdadeiro amor de Cristo Jesus.
E peço a Deus que o vosso amor cristão aumente mais e mais e que, ao mesmo tempo, se enriqueça de conhecimento e de compreensão. Pois que assim saberão dar o verdadeiro valor às coisas essenciais e a vossa conduta será marcada pela sinceridade, de forma a que nunca haja nenhuma razão de censura, até ao dia em que Jesus há de voltar.
-
Aqui, o apóstolo afirma que o povo de Filipos sempre foi seu parceiro nas obras do evangelho, tanto no momento de liberdade de Paulo, como nos momentos de prisão; Paulo ainda reitera as saudades que sente deles, e declara que pede a Deus que os filipenses sempre cresçam em amor e conhecimento
E a vossa atividade dará frutos de justiça, os quais são produzidos por Jesus Cristo, do que resultará honra e louvores a Deus. Gostava que ficassem a saber bem, meus irmãos, que tudo o que me tem acontecido serviu para uma maior divulgação do evangelho,
de tal maneira que todos os guardas da prisão, e muitos outros mais, sabem a razão verdadeira por que estou preso E até muitos cristãos, por causa disso, têm sido encorajados no seu testemunho, e falam com mais ousadia aos outros sobre a palavra de Deus.
-
Paulo consola seus amigos destinatários, informando a eles que a sua prisão, embora ruim, trouxe méritos para o evangelho, pois encorajou a muitos a pregarem de forma mais ousada.
É
verdade que alguns pregam Cristo só para se porem em pé de
igualdade comigo. Contudo muitos outros fazem-no com boas intenções.
Estes fazem-no por amor, sabendo que fui posto aqui para defender o
evangelho. Os outros, contudo, falam de Cristo mas num espírito de
disputa e sem sinceridade, pensando até com isso aumentar as
aflições
no
meu cárcere. Mas isso que importa? Desde que Cristo se torne
conhecido, seja de que maneira for, com segundos intentos ou com
honestidade, fico e sempre hei
de
ficar satisfeito. Porque sei que disto virá a resultar na minha
libertação, com a ajuda das vossas orações e com o socorro do
Espírito de Jesus Cristo.
-
Paulo reconhece que no meio dos pregadores, nem todos têm boas intenções, alguns pregam apenas para aparecer, outros para competir, ou até para prejudicar mais ainda a Paulo, no entanto, o importante é que o evangelho tem sido espalhado; e o espalhar das mensagens, junto com as orações dos filipenses, resultaria, cedo ou tarde na liberdade de Paulo.
É
que eu vivo numa intensa expectativa e esperança; e sei que em nada
ficarei decepcionado, antes pelo contrário, de acordo com a
confiança que sinto, Cristo será honrado pela minha pessoa, agora
como sempre, seja que eu continue em vida, ou que venha a ser
executado. Porque Cristo é a única razão da minha existência, e a
morte representa para mim um ganho!
-
Paulo então explica que, ganhando a liberdade ou sendo executado ele está feliz, porque sabe que a morte é na verdade uma benção, e que vivendo ou morrendo, o nome de Jesus Cristo será exaltado.
E
se o viver me der oportunidades de obter frutos do meu trabalho,
então nem sei o que é melhor. As duas coisas me atraem: por um lado
desejo partir e estar com Cristo, isto ainda seria o melhor mas, por
outro, é mais necessário que eu fique, para poder ajudar-vos. E é
isso que me leva a pensar que não morrerei já; que ainda viverei
aqui na terra algum tempo mais para vos ajudar a crescer
espiritualmente e a experimentar a alegria da vossa fé,e e para que
quando eu puder ir visitar-vos, a vossa alegria em Jesus Cristo
abunde por aquilo que ele fez por mim.
-
Paulo confessa se sentir em dúvida, por um lado a morte lhe chama atenção, mas a vida lhe trás a oportunidade de pregar a palavra, em especial a oportunidade de edificar a igreja em Filipos e lhes trazer alegria com a sua presença.
ANÁLISE DA PERÍCOPE
ANÁLISE TEXTUAL
Chegamos enfim a Perícope desejada, prossigamos então com nossa análise.
Mas
devem conduzir-se sempre conforme o evangelho de Cristo; e quer eu
possa ir ver-vos, quer não, que aquilo que se diz a vosso respeito
seja que vocês continuam unidos espiritualmente, combatendo juntos,
num mesmo propósito de espalhar a fé que nos vem pelo evangelho de
Cristo.
-
Paulo afirma que os filipenses devem seguir sempre o evangelho, eles precisam permanecer unidos no propósito de espalharem a fé de Cristo, independente do que aconteça com o Apóstolo
Não
tenham receio dos que resistem: isso mesmo é o sinal de que caminham
para a perdição. Mas para vocês é a indicação de que da parte
de Deus vos é concedida a vida eterna.
-
Eles não devem temer os adversários, pois as adversidades indicam que o povo de Filipos está seguindo o caminho certo para a vida eterna.
Porque
a vocês vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer
nele, como também padecer por ele! Estamos, vocês e eu, empenhados
no mesmo combate, combate esse que vocês me viram sustentar no
passado, e que, como sabem, continuo a travar.
-
Paulo encerra essa primeira parte afirmando que tanto filipenses, como ele, estão na mesma situação; A todos cabe não só viver por Cristo, mas também sofrer por ele.
ANÁLISE
EXEGÉTICA
Em
muitos trechos bíblicos, o texto no idioma original nos permite a
localização de algumas informações que as traduções em muitos
casos obliteram; nãos seria diferente aqui; vejamos alguns pontos
interessantes nessa perícope, e como sua compreensão pode nos
ajudar a extrair valiosas lições do escritos paulinos.
Logo
no primeiro verso, nos deparamos com a expressão grega Μόνον
ἀξίως τοῦ εὐαγγελίου τοῦ Χριστοῦ
πολιτεύεσθε – Mónon
aksíos tu euanguelíu tu Cristu politéueste; A
primeira palavra, Μόνον
– Mónon é
um advérbio, e pode ser traduzido como “apenas” ou
“somente” ou ainda “mas”, entretanto, ao observarmos o
contexto, entendemos que “mas” não é uma tradução que se
encaixe bem; Paulo afirma que quer viver para edificar aos
filipenses, mas não sabe se de fato o fará, ele então dá um
conselho, um único conselho aos seus amigos;
Apenas
façam isso
e tudo dará certo.
A
expressão que se segue, é sem dúvida o núcleo do sentido dessa
oração, a palavra ἀξίως
– aksíos;
seu significado nos trás a ideia de “dignidade”, “merecimento”;
algumas
tradução trazem essa palavra como “conforme”, ao observarmos o
complemento seguinte τοῦ
εὐαγγελίου τοῦ Χριστοῦ - tu
euanguelíu tu Cristu, (do
evangelho de Cristo), percebemos
como a correta tradução de ἀξίως
– aksíos nos
trás um sentido mais profundo do texto aqui escrito.
Paulo
afirma que os filipenses devem viver como se fossem dignos do
evangelho; a sua vida deve ser como a de alguém que merece o
evangelho, como alguém
pelo qual valia a pena Cristo morrer.
A
grande questão é, somos dignos do sacrifício de Cristo?
O
texto se completa ao percebermos que πολιτεύεσθε
- politéueste,
um
verbo no imperativo passivo, carrega em seu significado a ideia de
uma vida civil, uma vida cotidiana, a vida de um cidadão. O conselho
de Paulo aqui não se restringe a vida eclesiástica, os filipenses
devem viver em sociedade como pessoas merecedoras da graça divina.
Precisavam
fazer “valer a pena” o sacrifício de Cristo.
Mais
a frente, destacamos a expressão ἐν
ἑνὶ πνεύματι
– en
hení pnéumati,
a preposição ἐν
–
en merece
uma atenção especial, pois trás em si uma ideia de algo contido,
de algo “dentro de algum lugar”; o grego possui outras maneiras
pelas quais a mesma frase poderia ser escrita; a própria preposição
é aqui dispensável, uma vez que a palavra
πνεύματι
–
pnéumati
está
no
caso
Locativo, dessa
forma, mesmo sem a preposição, ter-se-ia
o mesmo significado, no entanto, as preposições no grego Koine nos
servem para “reforçar
a ideia do caso” (TAYLOR: 1990, p.30),
e
por isso merecem especial atenção;
Paulo
aqui enfatiza que os filipenses devem estar em “um só espírito”,
a preposição ἐν
–
en
reforça
a ideia de união dentro desse espírito, os filipenses precisam
estar imersos em um mesmo modo de pensar; não basta apenas haver
concordância, como um time
que perde um jogo e concorda que o vencedor merece o troféu; deve
haver uma união maior; precisam
estar intrinsecamente unidos;
Não
é a toa que essa mesma preposição é usada por Jesus quando afirma
que “ἐγὼ
καὶ ὁ Πατὴρ ἕν ἐσμεν”
- egó
kai ho patér en esmen, “Eu
e o pai somos um” (João 10.30 &
João 17.21
ACF)
A
mesma preposição aparece no verso seguinte, quando Paulo
os aconselha a não se escandalizarem “em
nada”; a
ideia de imersão continua; nesse caso como um amplificador
do conceito de “nada”,
é como se
em hipótese
alguma devessem se escandalizar
com
os ἀντικειμένων
– antikeiménon,
ou seja, os
que se colocam contra
a posição cristã deles na sociedade.
A
posição dessas pessoas é a ἔνδειξις
– éndeiksis
de
sua destruição; a palavra em questão é muitas vezes traduzida
como “indício”, mas seu significado é de algo mais claro como
“prova” ou “demonstração”; de fato, se colocar contra a
vida cristã é uma prova irrefutável que aquela pessoa está
perdida (Mc 7.18), ou seja, caminha para a ἀπωλείας
– apoléias; o
termo aqui muitas vezes traduzido como “perdição” significa
destruição, mas não no sentido de aniquilação, e sim no de “ser
cortado fora” (Mc 7.19). Aqueles
que se colocarem contra o viver cristão estão dando a prova que
serão cortados fora, como uma árvore que não dá bons frutos.
Chegamos
agora ao ponto em que acreditamos ser o auge de nosso estudo; em
muitas traduções, o verso a seguir sofre um corte, uma omissão.
Não se pode creditar isso a variantes textuais, pois, até onde se
sabe, a expressão aqui oculta é presente tanto nas edições do
Texto Crítico, quanto na do Texto Receptus;
de fato, a própria Bíblia King James (por
exemplo),
compilada em 1611, e baseada no Texto Receptus,
ignora
essa palavra, como
muitas outras traduções,
mesmo presente no “original” grego, conforme vemos a seguir:
For
unto you it is given in the behalf of christi, not only to belive on
him but, also to suffer for his sake – (BKJ
1611)
Porque
a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer
nele, mas também sofrer por ele. –
(BKJ
1611 PtBr)
Porque
a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer
nele, como também padecer por ele, –
(ARC)
Pois
a vocês foi dado o privilégio de, não apenas crer em Cristo, mas
também de sofrer por ele, –
(NVI)
Pois
ele tem dado a vocês o privilégio de servir a Cristo, não somente
crendo nele, mas também sofrendo por ele.– (NTLH)
Porque
a vocês vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer
nele, como também padecer por ele! –
(O
Livro)
Porque
vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de
crerdes nele, –
(ARA)
Pois
vos foi concedida, em relação a Cristo, a graça não só de
crerdes nele, mas também de por ele sofrerdes – (BJ)
A
diferença é sutil, e pode enganar até o observador mais atento, as
duas últimas traduções apresentadas (ARA e BJ) trazem a expressão
graça, fato que a maioria das traduções omite; entretanto, ao
observarmos o texto grego podemos facilmente encontrar a expressão
correspondente:
ὅτι
ὑμῖν ἐχαρίσθη τὸ ὑπὲρ Χριστοῦ, οὐ
μόνον τὸ εἰς αὐτὸν πιστεύειν, ἀλλὰ
καὶ τὸ ὑπὲρ αὐτοῦ πάσχειν – Hoti
humin
ecaríste
to
hupér Cristu ú mónon to eis auton pstéuein allá kai to huper
autú páskein
A
palavra em questão é ἐχαρίσθη
- ekaríste,
um
verbo que se encontra no Aoristo passivo da terceira pessoa do
singular, essa palavra é oriunda do substantivo
χάρις
– Cáris,
que traduzimos como “graça”; o verbo em questão é a ação de
conceder essa graça, de agir de forma graciosa; seu emprego na voz
passiva nos remete à ideia de que alguém nos deu essa graça,
alguém
agiu de forma graciosa para conosco quando nos permitiu não só
crer, mas sofrer por Cristo.
O
texto original trás primeiro o crer (πιστεύειν
- pistéuein)
e por último o sofrer (πάσχειν
– páskein),
essa ordem é importante, porque devemos
notar também o uso da conjunção ἀλλὰ
– allá,
esta
é a conjunção adversativa mais forte, muito mais forte que δὲ
- de,
outra conjunção também
adversativa
(TAYLOR: 1990 p.47); dessa forma, Paulo ao
empregá-la
quer marcar de forma vívida o contraste; recebemos a graça não só
de crer em Cisto, mas (entre aqui o contraste) de sofrer por ele.
O
sofrimento aqui não deve ser entendido como algo físico, uma vez
que πάσχειν
– páskein “refere-se
a qualquer parte de nós que sente forte emoção, paixão ou
sofrimento - especialmente ‘a
capacidade de
sentir o sofrimento’”
(STRONG: 1987 n.p), no entanto, o próprio contexto paulino não nos
dá ideia de que o Apóstolo tentasse excluir os sofrimentos físicos,
antes leva o seu foco a toda a carga emocional, o que contrasta
claramente com o tema central
da carta, a Alegria.
Paulo
não se escusa desse sofrimento, vemos isso claramente no final de
nossa perícope. Primeiro
precisamos compreender a palavra ἀγῶνα
– agona; esse
vocábulo significa uma “competição”,
“luta”,
um “conflito”, é
a raiz de palavras
em português como “agonia”; aliado a isso, Paulo usa a expressão
εἴδετε
ἐν ἐμοὶ
–
eidete en emói, que
traduzimos como “vocês veem em mim”.
Mais
uma vez encontramos a preposição ἐν
– en,
Paulo
aqui afirma que os filipenses sabiam da luta que ele passava; não se
refere aqui
apenas as prisões, mas
também
a
uma luta interna
(Rm 7.14-15); recordemos
novamente que tal preposição nos remete a ideia de “interior”,
e seguindo o contexto do significado de
πάσχειν
– páskein (sofrimento
emocional), é de nossa opinião que a ideia da luta interior de
Paulo nesse texto é plausível.
A
vida cristã, quando vivida na íntegra nos trás lutas; o apóstolo
Paulo confirma aos seu irmãos de Filipos que ele próprio possui
conflitos externos e internos; lutas incessantes; e se os filipenses
se mantivessem unidos em espírito e se portando como dignos de
Cristo, inevitavelmente teriam que passar por esses conflitos.
APLICAÇÃO
Paulo
sem dúvida foi um homem que viveu muito próximo a Cristo, mas como
homem ele tinha suas limitações, o apóstolo não sabia se sairia
vivo de sua prisão, não sabia se poderia tornar a ver seus amigos e
irmãos em Filipos; será que haveriam outras chances de edifica-lós,
haveria a possibilidade de escrever uma segunda carta? Nada nos
indica que o apóstolo sabia sobre o seu futuro, então ao escrever
aos filipenses, mesmo cheio de amor e alegria, Paulo os aconselha com
os melhores conselhos que poderia dar, porque talvez fossem os seus
últimos.
O
apóstolo resume todos os conselhos que podeira dar logo no início
da carta; “apenas se comportem como merecedores do evangelho”;
como pessoas que são dignas do sacrifício de Jesus. É sabido por
nós que o sacrifício de Jesus é impagável, muitos se lembram do
salmo que afirma “Que
darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?”
(Sl 116.12 ACF); como podemos nos tornar merecedores de tamanha
graça?
Aquele
que é o alfa e o ômega, o princípio e o fim; não ha nada que
possamos fazer para sermos dignos de recebermos o evangelho, no
entanto esse é o conselho de Paulo; valorizar o sacrifício de
Jesus; se esforçar para fazer valer a pena toda a dor e todo o
sangue derramado por ele.
Essa
é uma meta inatingível, nunca se poderá pagar o sacrifício de
Cristo, mas a vida do cristão consiste em buscá-la no
dia a dia ,
cada
novo dia precisa ser um negue-se a si mesmo, nosso viver diário
precisa refletir a vida de Cristo, sempre em busca de nos tornamos
“dignos”.
Precisamos
compreender que “ele
morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para
si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.”
(II
Co 5.15)
Essa
dedicação em vivermos de forma piedosa em todas as instâncias,
sempre na busca da perfeição espiritual se reflete claramente em
nosso relacionamento interpessoal; como servos de Deus precisamos
viver em uma união íntima e profunda com os nossos irmãos; não
basta apenas tolerarmos nossos conservos, precisamos ter a mesma
mente.
Jesus
em sua oração disse
“E
não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua
palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó
Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós,
para que o mundo creia que tu me enviaste”
(João 17.20-21); a nossa união como irmãos em Cristo precisa ser
algo muito profundo, da mesma forma que Jesus é um com o pai,
precisamos ser um. Mais uma vez nos deparamos com uma situação
impossível, como poderíamos ter tamanha comunhão? Novamente a
caminhada torna-se mais importante do que a meta; nossa vida deve ser
um esforço diário em direção a essa perfeição de comunhão.
Muitas
coisas deixam de acontecer em nossas igrejas hoje em dia, pela nossa
falta de união; brigas, desavenças e “panelinhas” são atitudes
que enfraquecem o nosso vínculo; ao agirmos assim deixamos de nos
assemelhemos com Cristo e nos tornamos indignos e inaptos para
espalhar a semente do evangelho aos outros.
Cabe
a cada um de nós esse esforço pela perfeição; entretanto, não é
raro de ouvirmos queixas e reclamações por termos uma vida piedosa,
se o nosso viver refletir a Cristo, aqueles que estão em trevas
terão apenas duas opções, virem para a luz ou não; o contraste da
luz com as trevas é tamanho que muitos, ao se sentirem incomodados,
acabam se colocando contra o viver cristão, não devemos temer a
eles e nem nos espantar com tais atitudes.
Estamos
no mundo, embora não sejamos dele, por isso não podemos nos
assustar quando vemos pessoas se levantarem contra o viver cristão;
infelizmente até dentro das igrejas é possível encontrar pessoas
que militam contra uma vida de santidade. Essas pessoas não nos
devem espantar, ela não estão ligadas em Cristo e com o seu agir
testificam isso, elas marcham a passos largos para o dia da colheita,
momento em que serão cortadas, como a árvore que não dão bons
frutos.
Frutifiquemos
pois e brilhemos a luz de Cristo com mais intensidade,
a fim de que esses
que andam perdidos em trevas possam
acertar o caminho; é certo que isso pode nos trazer provações e
dores, mas isso é um presente que Deus nos dá; servir a Cristo é
um privilegio, é uma graça concedida por
ele, sofrer
por Cristo também.
Vivemos
em um tempo que o evangelho “se tornou” uma fonte de bençãos e
felicidades; Cristo morreu na cruz para nos dar um carro novo. Mas a
verdade é que o genuíno evangelho é outro, a graça de Deus é
algo maravilhoso em nossas vidas; paradoxalmente, paulo nos diz que
sofrer por Cristo é uma graça divina; de fato somos a imagem e
semelhança de Deus, e se quisermos seguir a Cristo, precisamos
imitá-lo em seus passos, não só em suas virtudes, mas em seus
sofrimentos.
Quando
as horas negras chegarem em nossas vidas, quando as tristezas dessa
vida sobre nós se abaterem, precisamos olhar para os céus e
compreender que o sofrer é um privilégio; se sofremos com ele,
também com ele reinaremos (2Tm 2.12)¹
A
vida não é fácil, e o padrão de Jesus é altíssimo; mas sabemos
que cada lágrima aqui derramada,
cada esforço nosso em direção a uma santidade perfeita não
passará em branco (Mt 5.4); não podemos pagar pelo que
Cristo
fez por nós, mas podemos ofertar a ele um coração puro, ou ao
menos, empregar todos
os nosso esforços nessa direção.
CONCLUSÃO
A
alegria é de fato o tema central da carta de Filipenses, no entanto,
muitas e muitas lições se escondem por detrás de cada um dos
versículos; o servo de Deus deve ter em mente, que a sua alegria em
Deus é indiferente as situações; nossa busca pela santidade e por
agradar a Deus devem ser sempre uma meta de vida e nosso alvo
primordial.
Dores
e tristezas podem nos seguir, lutas internas externas podem aparecer
a todos os instantes, mas não podemos esquecer que em Cristo somos
mais que vencedores; problemas podem nos cercar, inimigos podem se
levantar, podemos ter fome ou frio, fartura ou escassez mas sabemos
que, como Paulo, podemos dizer “Posso todas as coisas naquele que
me fortalece” .
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Aceddo
em: 01
de novembro de 2019
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