quinta-feira, 7 de novembro de 2019

UM ESTUDO SOBRE FILIPENSES


INTRODUÇÃO



As cartas de Paulo são, sem dúvida alguma, uma das partes mais importantes da Bíblia para a teologia atual; A carta de Filipenses, embora pequena é rica em lições para vida. É provável que muitos já tenham lido esse trecho paulino e na correria do dia a dia nunca tenham se debruçado sobre ele a fim de perceber o que de fato este nos diz.
Ao longo das próximas páginas, será apresentado um rápido panorama histórico e literário dessa carta, isso possibilitará ao leitor compreender a seção de “Estudo do texto”, onde será comentado de maneira mais pormenorizada uma perícope em especial, a saber, o texto de Filipenses 1.27-30.
Eventualmente se fará necessária a observação do original grego a fim de dirimir dúvidas que surgem com a observação de suas versões em português. Os significados aqui atribuídos foram coletados de uma versão online da Strong's Concordance, o link para acesso pode ser encontrado na seção de Bibliografia. Ainda, sempre que possível, será apresentada uma adaptação fonética das palavras do idioma original; não entenda o leitor essa adaptação como uma transliteração, antes é um esforço para trazer a sonoridade das palavras gregas aos ouvidos brasileiros.



CONTEXTO HISTÓRICO


A carta de Paulo aos filipenses é mais um de seus escritos confeccionados em seu tempo de prisioneiro; mais precisamente em seu primeiro momento na prisão (YOUNGBLOOD, 2004), entretanto, há quem credite o local originário da carta a estadas paulinas em Cesareia ou Éfeso (BOOR, 2006), mas, a maioria dos escritores concordam com Roma como local de sua autoria, dessa forma, a epístola pode ser “datada em cerca de 60 d.C” ( YOUNGBLOOD: 2004, p.576 )
O tema principal da carta aos filipenses é a alegria (BOOR, 2006), mas não uma alegria humana, como a que Paulo poderia experimentar pelas ofertas recebidas, ou pelos seus companheiros Timóteo e Epafrodito ( YOUNGBLOOD: 2004, p.577) mas sim a Alegria no Senhor, Boor, em seu discurso sobre Filipenses, ao observar a alegria como tema principal da carta nos afirma que:
Essa impressão é correta, e quando a averiguamos, buscando esse tom na carta toda, notamos que não se trata apenas de uma tônica, mas de um pensamento fundamental que se estende por toda a carta. (BOOR:2006, p. 10)

Pode-se argumentar que o que motivou que levou Paulo à escrita da carta fora uma “oferta de amor relativamente generosa enviada pelos filipenses ao apóstolo na cadeia por meio de Epafrodito” (BOOR: 2006, p.6), mas nem só de alegria a carta é construída, havia sim outras questões por detrás das motivações Paulinas; Martin nos afirma que “havia diversas influências sendo exercidas contra a congregação filipense, a qual […] estava cercada por falsos ensinos” (1989, p. 46), a compreensão dessas ameaças é fundamental para o correto entendimento da mensagem paulina; como se verá a seguir.
Das falsas doutrinas que permeavam aquela cidade, à luz da perícope estudada a seguir, vale ressaltar que “os intrusos filipenses negavam a compreensão da chamada cristã como sendo aceitação da humildade e do sofrimento” (MARTIN: 1989, p.47), dessa forma entendiam que a vida cristã não precisava de sofrimento.
Quanto a veracidade da carta, não há necessidade de alongar-se em discussões, é de “consenso geral” a sua autoria Paulina e sua integridade como obra completa. No entanto, nem sempre foi assim, muitos há que já tenham tentado atribuir a outros a autoria de Filipenses, bem como localizar em seus trechos fragmentos pertencentes a outros escritos. Boor, em seu comentário à carta de Filipenses, nos tranquiliza ao explanar sobre a história dos principais adversores a carta, em sua obra podemos ler que:
Esse foi o caso sobretudo da chamada escola de Tübingen, conhecida por seu radicalismo histórico-crítico, que também nesse caso escolheu a via negativa. Contudo, depois do falecimento de seu último expoente, Carl Holsten (em 1897), ninguém que mereça ser levado a sério questiona a autenticidade da carta. ( BOOR:2006, p. 6)
Dessa forma, pode-se afirmar confiantemente que o que temos em mãos é, Mutatis mutandis, de fato uma tradução dos escritos Paulinos aos filipenses.


CONTEXTO LITERÁRIO


As cartas paulinas muitas vezes são divididas em 4 categorias, a saber, as escatológicas, soteriológicas, pastorais e de prisão; a carta de Filipenses se enquadra nessa última categoria (CONEGERO, 2019), no entanto, o fato de Paulo encontrar-se em situação carcerária, não se tornou em impeditivo para o desenvolvimento de uma carta coesa e profunda, conforme veremos a seguir.
Ao longo do tempo, muitos autores têm propostos esquemas de esboços para Filipenses. Enquanto Calvin nos apresenta uma divisão em 4 partes, sendo elas Alegria no sofrimento (1.1-30), Alegria no servir (2.1-30), Alegria em crer (3.1-4.1), Alegria em dar (4.2-23)” (2003, p.1659), Youngblood, em sua obra, nos apresenta um esboço didático muito mais completo e intuitivo, ele divide a carta aos filipenses ainda em 4 partes, mas nos trás subdivisões de cada uma delas, suas divisões são: “O relato de Paulo acerca da sua situação (1.1-30), Exortação ao amor fraternal (2.1-30), Exortação à maturidade cristã (3.1-31), Exortação à Paz de Cristo (4.1-23)” ( YOUNGBLOOD: 2004, p.577).
Se nos atentarmos às divisões, veremos que elas guardam certas semelhanças; enquanto todas as divisões de Calvin giram em torno da palavra “Alegria”, Youngblood trabalha de um modo mais específico, de certo a compreensão da enfase da carta, pode alterar nosso modo de dividi-la.
Isso fica claro em especial na terceira parte, o que Calvin chama de “Alegria em Crer”, Youngblood chama de “Exortação à maturidade Cristã”; ambos delimitam essa terceira parte como a totalidade do capítulo 3. Escusado nos é dizer que, embora os títulos escolhidos sejam “teologicamente próximos”, em sua essência guardam grandes diferenças. Abaixo oferecemos um quadro comprativo dos dois esboços.

QUADO COMPARATIVO DE ESBOÇOS
CALVIN
Youngblood
TEMA
REFERÊNCIA
TEMA
REFERÊNCIA
Alegria no sofrimento
1.1 a 1.30
O relato de Paulo acerca da sua situação
1.1 a 1.30
Alegria no servir
2.1 a 2.30
Exortação ao amor fraternal
2.1 a 2.30
Alegria em crer
3.1 a 4.1
Exortação à maturidade cristã
3.1 a 3.31
Alegria em dar
4.2 a 4.23
Exortação à Paz de Cristo
4.2 a 4.23

É de se convir que ambos esboços guardam muitas similaridades, não se pode negar que, ao fazer o relato a cerca da sua situação, Paulo nos fala sobre a alegria no sofrimento; quando nos escreve sobre o amor fraternal, coloca-se em pauta a alegria no servir.
No entanto, a partir da terceira divisão começamos a notar pequenas divergências, a começar por Calvin que insere o primeiro verso do capítulo 4º nessa divisão enquanto Youngblood o deixa de fora. Somos da opinião que Calvim fora mais feliz em sua decisão; ao observarmos o início desse verso, percebemos que ele principia com a palavra grega Ὥστε – Húste, uma conjunção conclusiva em muitas Bíblias traduzidas como “Portanto” ou ainda “Agora”. Conclusões fecham o raciocínio criado, e embora Youngblood tenha seguido a divisão de capítulos, o verso em questão faz parte da perícope anterior, pois conclui o pensamento iniciado, da mesma forma que, ao menos a primeira parte do versículo 1º do capítulo 3, deveria figurar como o 31º verso do capítulo 2.
Vale sembre lembrar que a divisão de capítulos e versículos não é inspirada e em muitos casos falha; antes é um esforço humano a fim de facilitar a localização de passagens dentro das Escrituras. Essas divisões se iniciaram no século XIII com os esforços de Stephen Langton, clérigo inglês, que dividiu as escrituras em capítulos e Pagnino de Luca, tradutor italiano que, no século XVI, dividiu a Bíblia em versículos. Mas, foi apenas em 1553, Século XVI, que a divisão que temos hoje nasceu; ela é oriunda dos esforços de Robert Stephanus que estudou os trabalhos anteriores e publicou uma versão francesa do Texto Sagrado, tal qual temos hoje (NORONHA, 2016).
Ainda em suas divisões, na terceira parte, o título proposto por Youngblood é mais condizente com o texto, pois Paulo, ali exorta seus leitores sobre os perigos da justiça própria, dos inimigos de Cristo e os convida a um conhecimento maior sobre Jesus (2004, p.577) e embora tudo isso traga ao fiel uma “Alegria em Crer”, pensamos que resumir todo o ensino ali contido com essa expressão seria de um agir minimalista.
Por fim, somos da opinião que a quarta divisão proposta por Calvin, isto é, “Alegria em dar”, não condiz com a parte final da carta aos filipenses, tendo mais uma vez Youngblood sido mais feliz ao intitular essa divisão como “Exortação à Paz de Cristo”.
No geral, embora Calvin tenha sido feliz em suas duas primeiras divisões e na localização mais precisa do final de terceira (e inicio da quarta) divisão, Youngblood nos apresenta um trabalho mais conciso e mais detalhado, de forma que adoaremos suas sugestões.

ESTUDO DO TEXTO


A carta de Paulo aos filipenses é sem dúvida uma pérola das escrituras, em cada perícope encontramos valiosas lições e cada versículo possui em si uma série de aplicações; não poderia ser diferente a palavra de Deus. No entanto, para fins práticos, nos deteremos em uma perícope singular dessa carta. Considerando a divisão de versículos habitual, nosso estudo se concentrará no texto do 1º capítulo de Filipenses, do verso 27 ao 30, o qual reproduzimos abaixo, segundo a tradução da Bíblia Almeida Corrigida e Fiel.

Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho.
E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele,Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim.
(Filipenses 1.27-30 ACF)

A fim de podermos estudar melhor essa perícope, cabe-nos uma recapitulação das palavras anteriores do apóstolo Paulo, para tanto, utilizaremos uma outra tradução, conhecida como “O livro”

CONTEXTUALIZANDO




Paulo e Timóteo, ao serviço de Jesus Cristo, saúdam todos os santos, cujas vidas estão unidas a Cristo Jesus, na cidade de Filipos. Saúdam também os pastores na igreja e os diáconos. Que Deus nosso Pai e o Senhor Jesus Cristo vos dê graça e paz.
Sempre que penso em vocês, louvo e expresso a Deus o meu reconhecimento pelas boas recordações que vocês me deixaram. E quando faço oração, é com alegria que sempre vos menciono, por causa da vossa participação ativa na difusão do evangelho, desde o primeiro dia até agora. E tenho a certeza de que Deus, que começou essa boa obra na vossa vida, vai completá-la até ao momento em que Jesus Cristo voltar.

  • Esse é o início de sua carta, Paulo aqui se apresenta de forma cordial e elogia os filipenses por sua ação na evangelização

E é justo que sinta isto a vosso respeito, porque vocês têm um lugar muito especial em meu coração; participamos juntos das bênçãos de Deus, tanto quando estava na prisão como em liberdade, defendendo a verdade e proclamando o evangelho.
Deus sabe como sinto saudades de vocês todos, no verdadeiro amor de Cristo Jesus.
E peço a Deus que o vosso amor cristão aumente mais e mais e que, ao mesmo tempo, se enriqueça de conhecimento e de compreensão. Pois que assim saberão dar o verdadeiro valor às coisas essenciais e a vossa conduta será marcada pela sinceridade, de forma a que nunca haja nenhuma razão de censura, até ao dia em que Jesus há de voltar.

  • Aqui, o apóstolo afirma que o povo de Filipos sempre foi seu parceiro nas obras do evangelho, tanto no momento de liberdade de Paulo, como nos momentos de prisão; Paulo ainda reitera as saudades que sente deles, e declara que pede a Deus que os filipenses sempre cresçam em amor e conhecimento

E a vossa atividade dará frutos de justiça, os quais são produzidos por Jesus Cristo, do que resultará honra e louvores a Deus. Gostava que ficassem a saber bem, meus irmãos, que tudo o que me tem acontecido serviu para uma maior divulgação do evangelho,
de tal maneira que todos os guardas da prisão, e muitos outros mais, sabem a razão verdadeira por que estou preso E até muitos cristãos, por causa disso, têm sido encorajados no seu testemunho, e falam com mais ousadia aos outros sobre a palavra de Deus.

  • Paulo consola seus amigos destinatários, informando a eles que a sua prisão, embora ruim, trouxe méritos para o evangelho, pois encorajou a muitos a pregarem de forma mais ousada.

É verdade que alguns pregam Cristo só para se porem em pé de igualdade comigo. Contudo muitos outros fazem-no com boas intenções. Estes fazem-no por amor, sabendo que fui posto aqui para defender o evangelho. Os outros, contudo, falam de Cristo mas num espírito de disputa e sem sinceridade, pensando até com isso aumentar as aflições
no meu cárcere. Mas isso que importa? Desde que Cristo se torne conhecido, seja de que maneira for, com segundos intentos ou com honestidade, fico e sempre hei de ficar satisfeito. Porque sei que disto virá a resultar na minha libertação, com a ajuda das vossas orações e com o socorro do Espírito de Jesus Cristo.

  • Paulo reconhece que no meio dos pregadores, nem todos têm boas intenções, alguns pregam apenas para aparecer, outros para competir, ou até para prejudicar mais ainda a Paulo, no entanto, o importante é que o evangelho tem sido espalhado; e o espalhar das mensagens, junto com as orações dos filipenses, resultaria, cedo ou tarde na liberdade de Paulo.

É que eu vivo numa intensa expectativa e esperança; e sei que em nada ficarei decepcionado, antes pelo contrário, de acordo com a confiança que sinto, Cristo será honrado pela minha pessoa, agora como sempre, seja que eu continue em vida, ou que venha a ser executado. Porque Cristo é a única razão da minha existência, e a morte representa para mim um ganho!

  • Paulo então explica que, ganhando a liberdade ou sendo executado ele está feliz, porque sabe que a morte é na verdade uma benção, e que vivendo ou morrendo, o nome de Jesus Cristo será exaltado.

E se o viver me der oportunidades de obter frutos do meu trabalho, então nem sei o que é melhor. As duas coisas me atraem: por um lado desejo partir e estar com Cristo, isto ainda seria o melhor mas, por outro, é mais necessário que eu fique, para poder ajudar-vos. E é isso que me leva a pensar que não morrerei já; que ainda viverei aqui na terra algum tempo mais para vos ajudar a crescer espiritualmente e a experimentar a alegria da vossa fé,e e para que quando eu puder ir visitar-vos, a vossa alegria em Jesus Cristo abunde por aquilo que ele fez por mim.

  • Paulo confessa se sentir em dúvida, por um lado a morte lhe chama atenção, mas a vida lhe trás a oportunidade de pregar a palavra, em especial a oportunidade de edificar a igreja em Filipos e lhes trazer alegria com a sua presença.

ANÁLISE DA PERÍCOPE

ANÁLISE TEXTUAL


Chegamos enfim a Perícope desejada, prossigamos então com nossa análise.

Mas devem conduzir-se sempre conforme o evangelho de Cristo; e quer eu possa ir ver-vos, quer não, que aquilo que se diz a vosso respeito seja que vocês continuam unidos espiritualmente, combatendo juntos, num mesmo propósito de espalhar a fé que nos vem pelo evangelho de Cristo.

  • Paulo afirma que os filipenses devem seguir sempre o evangelho, eles precisam permanecer unidos no propósito de espalharem a fé de Cristo, independente do que aconteça com o Apóstolo

Não tenham receio dos que resistem: isso mesmo é o sinal de que caminham para a perdição. Mas para vocês é a indicação de que da parte de Deus vos é concedida a vida eterna.

  • Eles não devem temer os adversários, pois as adversidades indicam que o povo de Filipos está seguindo o caminho certo para a vida eterna.

Porque a vocês vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele! Estamos, vocês e eu, empenhados no mesmo combate, combate esse que vocês me viram sustentar no passado, e que, como sabem, continuo a travar.

  • Paulo encerra essa primeira parte afirmando que tanto filipenses, como ele, estão na mesma situação; A todos cabe não só viver por Cristo, mas também sofrer por ele.

ANÁLISE EXEGÉTICA



Em muitos trechos bíblicos, o texto no idioma original nos permite a localização de algumas informações que as traduções em muitos casos obliteram; nãos seria diferente aqui; vejamos alguns pontos interessantes nessa perícope, e como sua compreensão pode nos ajudar a extrair valiosas lições do escritos paulinos.
Logo no primeiro verso, nos deparamos com a expressão grega Μόνον ἀξίως τοῦ εὐαγγελίου τοῦ Χριστοῦ πολιτεύεσθε – Mónon aksíos tu euanguelíu tu Cristu politéueste; A primeira palavra, Μόνον – Mónon é um advérbio, e pode ser traduzido como “apenas” ou “somente” ou ainda “mas”, entretanto, ao observarmos o contexto, entendemos que “mas” não é uma tradução que se encaixe bem; Paulo afirma que quer viver para edificar aos filipenses, mas não sabe se de fato o fará, ele então dá um conselho, um único conselho aos seus amigos; Apenas façam isso e tudo dará certo.
A expressão que se segue, é sem dúvida o núcleo do sentido dessa oração, a palavra ἀξίως – aksíos; seu significado nos trás a ideia de “dignidade”, “merecimento”; algumas tradução trazem essa palavra como “conforme”, ao observarmos o complemento seguinte τοῦ εὐαγγελίου τοῦ Χριστοῦ - tu euanguelíu tu Cristu, (do evangelho de Cristo), percebemos como a correta tradução de ἀξίως – aksíos nos trás um sentido mais profundo do texto aqui escrito.
Paulo afirma que os filipenses devem viver como se fossem dignos do evangelho; a sua vida deve ser como a de alguém que merece o evangelho, como alguém pelo qual valia a pena Cristo morrer. A grande questão é, somos dignos do sacrifício de Cristo?
O texto se completa ao percebermos que πολιτεύεσθε - politéueste, um verbo no imperativo passivo, carrega em seu significado a ideia de uma vida civil, uma vida cotidiana, a vida de um cidadão. O conselho de Paulo aqui não se restringe a vida eclesiástica, os filipenses devem viver em sociedade como pessoas merecedoras da graça divina. Precisavam fazer “valer a pena” o sacrifício de Cristo.
Mais a frente, destacamos a expressão ἐν ἑνὶ πνεύματιen hení pnéumati, a preposição ἐν en merece uma atenção especial, pois trás em si uma ideia de algo contido, de algo “dentro de algum lugar”; o grego possui outras maneiras pelas quais a mesma frase poderia ser escrita; a própria preposição é aqui dispensável, uma vez que a palavra πνεύματι pnéumati está no caso Locativo, dessa forma, mesmo sem a preposição, ter-se-ia o mesmo significado, no entanto, as preposições no grego Koine nos servem para “reforçar a ideia do caso” (TAYLOR: 1990, p.30), e por isso merecem especial atenção;
Paulo aqui enfatiza que os filipenses devem estar em “um só espírito”, a preposição ἐν en reforça a ideia de união dentro desse espírito, os filipenses precisam estar imersos em um mesmo modo de pensar; não basta apenas haver concordância, como um time que perde um jogo e concorda que o vencedor merece o troféu; deve haver uma união maior; precisam estar intrinsecamente unidos; Não é a toa que essa mesma preposição é usada por Jesus quando afirma que “ἐγὼ καὶ ὁ Πατὴρ ἕν ἐσμεν” - egó kai ho patér en esmen, “Eu e o pai somos um” (João 10.30 & João 17.21 ACF)
A mesma preposição aparece no verso seguinte, quando Paulo os aconselha a não se escandalizarem “em nada”; a ideia de imersão continua; nesse caso como um amplificador do conceito de “nada”, é como se em hipótese alguma devessem se escandalizar com os ἀντικειμένων – antikeiménon, ou seja, os que se colocam contra a posição cristã deles na sociedade.
A posição dessas pessoas é a ἔνδειξις – éndeiksis de sua destruição; a palavra em questão é muitas vezes traduzida como “indício”, mas seu significado é de algo mais claro como “prova” ou “demonstração”; de fato, se colocar contra a vida cristã é uma prova irrefutável que aquela pessoa está perdida (Mc 7.18), ou seja, caminha para a ἀπωλείας – apoléias; o termo aqui muitas vezes traduzido como “perdição” significa destruição, mas não no sentido de aniquilação, e sim no de “ser cortado fora” (Mc 7.19). Aqueles que se colocarem contra o viver cristão estão dando a prova que serão cortados fora, como uma árvore que não dá bons frutos.
Chegamos agora ao ponto em que acreditamos ser o auge de nosso estudo; em muitas traduções, o verso a seguir sofre um corte, uma omissão. Não se pode creditar isso a variantes textuais, pois, até onde se sabe, a expressão aqui oculta é presente tanto nas edições do Texto Crítico, quanto na do Texto Receptus; de fato, a própria Bíblia King James (por exemplo), compilada em 1611, e baseada no Texto Receptus, ignora essa palavra, como muitas outras traduções, mesmo presente no “original” grego, conforme vemos a seguir:
For unto you it is given in the behalf of christi, not only to belive on him but, also to suffer for his sake – (BKJ 1611)
Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, mas também sofrer por ele. (BKJ 1611 PtBr)
Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele, (ARC)
Pois a vocês foi dado o privilégio de, não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele, (NVI)
Pois ele tem dado a vocês o privilégio de servir a Cristo, não somente crendo nele, mas também sofrendo por ele.(NTLH)
Porque a vocês vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele! (O Livro)
Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele, (ARA)
Pois vos foi concedida, em relação a Cristo, a graça não só de crerdes nele, mas também de por ele sofrerdes – (BJ)
A diferença é sutil, e pode enganar até o observador mais atento, as duas últimas traduções apresentadas (ARA e BJ) trazem a expressão graça, fato que a maioria das traduções omite; entretanto, ao observarmos o texto grego podemos facilmente encontrar a expressão correspondente:
ὅτι ὑμῖν ἐχαρίσθη τὸ ὑπὲρ Χριστοῦ, οὐ μόνον τὸ εἰς αὐτὸν πιστεύειν, ἀλλὰ καὶ τὸ ὑπὲρ αὐτοῦ πάσχειν – Hoti humin ecaríste to hupér Cristu ú mónon to eis auton pstéuein allá kai to huper autú páskein
A palavra em questão é ἐχαρίσθη - ekaríste, um verbo que se encontra no Aoristo passivo da terceira pessoa do singular, essa palavra é oriunda do substantivo χάρις – Cáris, que traduzimos como “graça”; o verbo em questão é a ação de conceder essa graça, de agir de forma graciosa; seu emprego na voz passiva nos remete à ideia de que alguém nos deu essa graça, alguém agiu de forma graciosa para conosco quando nos permitiu não só crer, mas sofrer por Cristo.
O texto original trás primeiro o crer (πιστεύειν - pistéuein) e por último o sofrer (πάσχειν – páskein), essa ordem é importante, porque devemos notar também o uso da conjunção ἀλλὰ – allá, esta é a conjunção adversativa mais forte, muito mais forte que δὲ - de, outra conjunção também adversativa (TAYLOR: 1990 p.47); dessa forma, Paulo ao empregá-la quer marcar de forma vívida o contraste; recebemos a graça não só de crer em Cisto, mas (entre aqui o contraste) de sofrer por ele.
O sofrimento aqui não deve ser entendido como algo físico, uma vez que πάσχειν – páskein refere-se a qualquer parte de nós que sente forte emoção, paixão ou sofrimento - especialmente ‘a capacidade de sentir o sofrimento’” (STRONG: 1987 n.p), no entanto, o próprio contexto paulino não nos dá ideia de que o Apóstolo tentasse excluir os sofrimentos físicos, antes leva o seu foco a toda a carga emocional, o que contrasta claramente com o tema central da carta, a Alegria.
Paulo não se escusa desse sofrimento, vemos isso claramente no final de nossa perícope. Primeiro precisamos compreender a palavra ἀγῶνα – agona; esse vocábulo significa uma “competição”, “luta”, um “conflito”, é a raiz de palavras em português como “agonia”; aliado a isso, Paulo usa a expressão εἴδετε ἐν ἐμοὶ eidete en emói, que traduzimos como “vocês veem em mim”.
Mais uma vez encontramos a preposição ἐν – en, Paulo aqui afirma que os filipenses sabiam da luta que ele passava; não se refere aqui apenas as prisões, mas também a uma luta interna (Rm 7.14-15); recordemos novamente que tal preposição nos remete a ideia de “interior”, e seguindo o contexto do significado de πάσχειν – páskein (sofrimento emocional), é de nossa opinião que a ideia da luta interior de Paulo nesse texto é plausível.
A vida cristã, quando vivida na íntegra nos trás lutas; o apóstolo Paulo confirma aos seu irmãos de Filipos que ele próprio possui conflitos externos e internos; lutas incessantes; e se os filipenses se mantivessem unidos em espírito e se portando como dignos de Cristo, inevitavelmente teriam que passar por esses conflitos.

APLICAÇÃO



Paulo sem dúvida foi um homem que viveu muito próximo a Cristo, mas como homem ele tinha suas limitações, o apóstolo não sabia se sairia vivo de sua prisão, não sabia se poderia tornar a ver seus amigos e irmãos em Filipos; será que haveriam outras chances de edifica-lós, haveria a possibilidade de escrever uma segunda carta? Nada nos indica que o apóstolo sabia sobre o seu futuro, então ao escrever aos filipenses, mesmo cheio de amor e alegria, Paulo os aconselha com os melhores conselhos que poderia dar, porque talvez fossem os seus últimos.
O apóstolo resume todos os conselhos que podeira dar logo no início da carta; “apenas se comportem como merecedores do evangelho”; como pessoas que são dignas do sacrifício de Jesus. É sabido por nós que o sacrifício de Jesus é impagável, muitos se lembram do salmo que afirma “Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?” (Sl 116.12 ACF); como podemos nos tornar merecedores de tamanha graça?
Aquele que é o alfa e o ômega, o princípio e o fim; não ha nada que possamos fazer para sermos dignos de recebermos o evangelho, no entanto esse é o conselho de Paulo; valorizar o sacrifício de Jesus; se esforçar para fazer valer a pena toda a dor e todo o sangue derramado por ele.
Essa é uma meta inatingível, nunca se poderá pagar o sacrifício de Cristo, mas a vida do cristão consiste em buscá-la no dia a dia , cada novo dia precisa ser um negue-se a si mesmo, nosso viver diário precisa refletir a vida de Cristo, sempre em busca de nos tornamos “dignos”. Precisamos compreender que “ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.(II Co 5.15)
Essa dedicação em vivermos de forma piedosa em todas as instâncias, sempre na busca da perfeição espiritual se reflete claramente em nosso relacionamento interpessoal; como servos de Deus precisamos viver em uma união íntima e profunda com os nossos irmãos; não basta apenas tolerarmos nossos conservos, precisamos ter a mesma mente.
Jesus em sua oração disse “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17.20-21); a nossa união como irmãos em Cristo precisa ser algo muito profundo, da mesma forma que Jesus é um com o pai, precisamos ser um. Mais uma vez nos deparamos com uma situação impossível, como poderíamos ter tamanha comunhão? Novamente a caminhada torna-se mais importante do que a meta; nossa vida deve ser um esforço diário em direção a essa perfeição de comunhão.
Muitas coisas deixam de acontecer em nossas igrejas hoje em dia, pela nossa falta de união; brigas, desavenças e “panelinhas” são atitudes que enfraquecem o nosso vínculo; ao agirmos assim deixamos de nos assemelhemos com Cristo e nos tornamos indignos e inaptos para espalhar a semente do evangelho aos outros.
Cabe a cada um de nós esse esforço pela perfeição; entretanto, não é raro de ouvirmos queixas e reclamações por termos uma vida piedosa, se o nosso viver refletir a Cristo, aqueles que estão em trevas terão apenas duas opções, virem para a luz ou não; o contraste da luz com as trevas é tamanho que muitos, ao se sentirem incomodados, acabam se colocando contra o viver cristão, não devemos temer a eles e nem nos espantar com tais atitudes.
Estamos no mundo, embora não sejamos dele, por isso não podemos nos assustar quando vemos pessoas se levantarem contra o viver cristão; infelizmente até dentro das igrejas é possível encontrar pessoas que militam contra uma vida de santidade. Essas pessoas não nos devem espantar, ela não estão ligadas em Cristo e com o seu agir testificam isso, elas marcham a passos largos para o dia da colheita, momento em que serão cortadas, como a árvore que não dão bons frutos.
Frutifiquemos pois e brilhemos a luz de Cristo com mais intensidade, a fim de que esses que andam perdidos em trevas possam acertar o caminho; é certo que isso pode nos trazer provações e dores, mas isso é um presente que Deus nos dá; servir a Cristo é um privilegio, é uma graça concedida por ele, sofrer por Cristo também.
Vivemos em um tempo que o evangelho “se tornou” uma fonte de bençãos e felicidades; Cristo morreu na cruz para nos dar um carro novo. Mas a verdade é que o genuíno evangelho é outro, a graça de Deus é algo maravilhoso em nossas vidas; paradoxalmente, paulo nos diz que sofrer por Cristo é uma graça divina; de fato somos a imagem e semelhança de Deus, e se quisermos seguir a Cristo, precisamos imitá-lo em seus passos, não só em suas virtudes, mas em seus sofrimentos.
Quando as horas negras chegarem em nossas vidas, quando as tristezas dessa vida sobre nós se abaterem, precisamos olhar para os céus e compreender que o sofrer é um privilégio; se sofremos com ele, também com ele reinaremos (2Tm 2.12)¹ 
A vida não é fácil, e o padrão de Jesus é altíssimo; mas sabemos que cada lágrima aqui derramada, cada esforço nosso em direção a uma santidade perfeita não passará em branco (Mt 5.4); não podemos pagar pelo que Cristo fez por nós, mas podemos ofertar a ele um coração puro, ou ao menos, empregar todos os nosso esforços nessa direção.

CONCLUSÃO



A alegria é de fato o tema central da carta de Filipenses, no entanto, muitas e muitas lições se escondem por detrás de cada um dos versículos; o servo de Deus deve ter em mente, que a sua alegria em Deus é indiferente as situações; nossa busca pela santidade e por agradar a Deus devem ser sempre uma meta de vida e nosso alvo primordial.
 Dores e tristezas podem nos seguir, lutas internas externas podem aparecer a todos os instantes, mas não podemos esquecer que em Cristo somos mais que vencedores; problemas podem nos cercar, inimigos podem se levantar, podemos ter fome ou frio, fartura ou escassez mas sabemos que, como Paulo, podemos dizer “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” .


BIBLIOGRAFIA




BOOR, Werner de, Cartas aos Filipenses – comentário esperança, Curitiba. Editora Evangélica Esperança, 2ª ed. 1997

CALVIN, C James, Esboços e harmonia. In: BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Tradução por João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2003.

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¹Conquanto as traduções variem entre “sofrer”, “perseverar” e “padecer” para o texto de 2ª Tm 2.12; em grego lemos ὑπομένομεν – hupoménomen, que significa permanecer sob uma forte carga de forma persistente. Sabendo que não há uma tradução perfeita para a palavra, ou seja, que exprima todo o seu significado original, entendemos que o verso encaixa-se bem na aplicação proposta, sobretudo ao estudarmos o contexto em que está inserido.

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